Por que falar em "Terra em Transe"? Cobertura do evento CinePet
- PET-RI PUC-SP

- 3 days ago
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Por Ana Luiza Yaqub Lins

Realizado no dia 28 de setembro de 2025, na vigésima terceira Semana de Relações Internacionais, em celebração aos trinta anos do curso na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o evento Cinepet trouxe o filme “Terra em Transe"(1967), de Glauber Rocha, como palco de reflexão. Nas intersecções entre cinema e história, tem-se na arte, o objeto de estudo como forma de conhecimento, atravessando o tradicionalismo epistemológico. Tendo no olhar cinematográfico, ao extrapolar a dimensão artística das telas, a possibilidade de compreensão histórica de processos políticos e sociais, e de sua repercussão nos tempos atuais.
O que seria pensar em “Terra em Transe"? E o que faz desse filme ser, ao mesmo tempo, um registro de seu próprio tempo e atemporal ao refletir diversos contextos e realidades? Como uma produção de 1967 se mantém atual e que, por vezes, é resgatada em sua referência?
Com a presença ilustre do professor doutor da casa Miguel Chaia, e dos professores tutores Reginaldo Nasser, Terra Budini e Tomaz Paoliello, o evento contou com a transmissão de cortes do filme e discussões sobre a obra. Introduzido pela explicação detalhada do longa, seu contexto de publicação e da persona como cineasta, em duas horas de realização, é apresentado o universo de Glauber Rocha. Trazendo a conjuntura de complexidade da obra, o filme é visto como um grande poema, atravessado pela arte e pela política.
Publicado no final da década de sessenta, sua estreia surge em um dos períodos mais críticos da história política brasileira. O Golpe de Estado de 1964, cometido pelos militares e apoiado por uma parcela expressiva da sociedade civil e por setores econômicos influentes, deu fim às ideias reformistas iniciadas pelo governo de João Goulart. Em suas reformas de base idealizadas, encontrou forte resistência de camadas mais conservadoras da sociedade, que viam nessas mudanças uma radicalização e um alinhamento com os países socialistas como Cuba, União Soviética e China, vistas como malignas para o caminho do progresso da nação (Lima Neto, 2012). Mundo afora, o cenário internacional é envolto nas disputas veladas da Guerra Fria, simultaneamente posto nas lutas por independência na África e pela crescente onda de ditaduras que atravessaram a América Latina.
Marcado pelo avanço da ditadura cívil-militar instaurado em 1964, e pela crescente repressão às manifestações intelectuais e artísticas, a publicação do filme foi envolta do autoritarismo do período. Visto como mal montado, primitivo e sem pé nem cabeça, e por ser identificado como um conteúdo subversivo e de baixa qualidade, a estreia do filme sofreu, em um primeiro momento, a intervenção da censura (Prysthon, 2007). Com seu lançamento, foi premiado no festival de Cannes de 1967 por seu caráter crítico e inovador. Contudo, “Terra em Transe” nunca foi consenso, sendo recebido no cenário nacional por grande polêmica envolvendo debates nos mais diversos expoentes sociais, reflexo de sua complexidade e significado.
Entender a persona de Glauber Rocha, mostra o quanto criador e criação são inseparáveis, interagem e compactuam para o entendimento da obra e seu próprio tempo. Jornalista, escritor, polemizador e apresentador de programas autorais na televisão, sua personalidade é posta em um talento excepcional, controverso e carismático. Transitando entre a cultura e a política, Glauber mobilizou e criou um conjunto de ideias e argumentos que semeou em múltiplas direções. Vivendo o contraditório no cerne de sua trajetória, dialogou com diferentes governos e concepções de poder político. De um conservador liberal como o governador do estado do Rio de Janeiro, em Carlos Lacerda, aos desenvolvimentistas vinculados ao governo de João Goulart, sua articulação era grandiosa ao propor o diálogo para pautar o papel da atuação governamental, principalmente no que se refere a reivindicar por políticas de suporte ao cinema brasileiro (Chaia; Estevinho, 2020).
Foi no campo cinematográfico que ganhou maior notoriedade, dando luz às suas ambições. No retrato da identidade nacional e da luta política no Brasil, por meio de uma estética revolucionária e uma narrativa que ampliasse o diálogo internacional do cinema brasileiro, e na própria instrumentalização do cinema, ao impelir um rumo e influenciar a vida política no país, Glauber tornou-se pioneiro do Cinema Novo e referência do movimento Tropicália (Ramos, 2006). Líder entre seus pares, também se fez um importante articulador político e institucional. Conjuntura fortemente refletida em sua obra, na construção de uma identidade cultural compartilhada, na representação de conflitos políticos e sociais e nas diferentes instâncias de representação. Produzindo um rico arcabouço representativo dos mais diferentes tipos de lideranças políticas perceptíveis tanto na história do Brasil quanto na história da América Latina (Chaia; Estevinho, 2020).
Terra em Transe é o manifesto-síntese (Chaia; Estevinho, 2020) da grandiosidade de seu autor. De sua própria trajetória de vida, de suas ambições e de seu pensamento inquieto. Traduzidas em um olhar e técnica revolucionários. Caracteriza, de fato, sua imagem como liderança cultural e política.
A primeira cena. Uma tomada aérea, as águas, o movimento, transformado em quadro abstrato, a trilha sonora com tambores e vozes evocam um primitivismo, ao continente, a chegada. Na tela se lê: Eldorado. País Interior. Atlântico. Tropical. O filme já anuncia, é uma metáfora (Lima Neto, 2012). “Terra em Transe” conta a história de Eldorado, um país fictício alegoria para a América Latina, que nos é apresentado através do olhar de Paulo Martins – protagonista do filme - poeta burguês e jornalista aspirante a revolucionário, vive a dualidade de ser poeta ou político. Inicia sua trajetória política no que chama de “Deus da minha juventude". Mas logo se desencanta e rompe relações com o conservador Porfírio Diaz. Ao lado de Sara, é apresentado às vertentes progressistas e se dedica ao projeto político do populista Felipe Vieira. Após conseguir eleger Viera como governador da província de Alecrim, as contradições do processo político se tornam evidentes e os conflitos de luta de classe se acirram. Diante da iminência da possível vitória de Vieira para a presidência da república, Diaz organiza um golpe de estado para garantir seus interesses, assim como os de seus aliados em Eldorado, Júlio Fuentes e o Padre. Que não é resistido por Vieira por medo do derramamento de sangue. Inconformado, ele se lança sozinho contra as forças opressoras, acreditando na resistência armada como melhor via de ação, torna-se um mártir de uma causa perdida. Na morte como sacrifício, em um ser dilacerado entre a arte e a política.
Como explica Chaia, a câmera dança em volta dos personagens, sempre em movimento, é um outro personagem. O próprio Glauber Rocha, inquieto. Ambíguo. Em uma relação de amor e ódio com Eldorado, entre a arte e a política e o jornalismo, à direita e à esquerda. Escancara as controvérsias da política, da sociedade, da própria existência. A trajetória, não linear, harmoniza ainda mais com o caos, inerente, com as ambiguidades que o filme reflete. Reflexo de seu próprio momento histórico.
Em seu arcabouço representativo, os personagens, não mais vistos como indivíduos, são a própria ilustração dos casos históricos, característicos do segmento social que constituem (Chaia; Estevinho, 2020). Pensar uma civilização atlântica como este bloco geopolítico, constrói um complexo mapeamento das lideranças políticas, institucionais e não institucionais, descrito de acordo com seus interesses e seu público alvo no interior dos conflitos sociais. Identificando-se no enredo do filme, as lideranças políticas institucionais em Felipe Vieira (José Lewgoy), líder populista e progressista, representado de maneira caricata e apelativa em um olhar crítico às expressões esquerdistas da época. E em Porfírio Diaz (Paulo Autran), líder conservador, de extrema direita e golpista, atua de forma elitista, desconsiderando processos eleitorais e na instrumentalização da violência na justifica para o progresso, rumo à civilização, também referência, o pensamento convervador ligada à chegada aos portugueses de conversão da cultura ibérica, o próprio imperialismo.
Além de Paulo Martins (interpretado por Jardel filho), a representação de lideranças não institucionais é pautada por: Júlio Fuentes (Paulo Gracindo), como líder empresarial e industrial, detentor dos império de comunicação, mineração e outras áreas estratégicas da economia, representa os interesses das elites econômicas e dos grupos que articulam o poder a partir do controle dos meios de produção e informação; por Jerônimo, como líder sindical, identificado com o povo (Chaia; Estevinho, 2020); por Sara (Glauce Rocha), militante partidária, e companheira de Paulo Martins, personifica as transformações do papel da mulher ao longo do século XX. Na luta por uma sociedade mais justa, enfrentou todos os riscos para que pudesse usufruir seus direitos de cidadã, abdicando de alguns ideais cristalizados no inconsciente feminino como casamento e filhos (Lima Neto, 2012). Além das figuras do padre, do camponês e guerrilheiro, como representações, respectivamente, dos interesses da igreja e construção simbólica de segmentos populares subalternizados na sociedade. Pautando o segmento do campesinato rural como base explorada e silenciada, e a fração politicamente radicalizada que defendem a luta armada como alternativa diante da falência das vias institucionais.
O povo, aparece sempre carnavalizado em uma euforia, em um pão e circo eterno, alienado do reconhecimento das lideranças políticas de seu país. Longe do glamour hollywoodiano, a estética da fome traz a reflexão da própria produção do Cinema Novo. Assumir as condições do subdesenvolvimentismo é construir uma representação de si, rejeitando o olhar estereotipado do outro, cria-se a consciência em desenvolvimento, de sua história, de seus aspectos político-sociais, de suas desigualdades. A alegoria da à trajetória do país no subdesenvolvimento.
Onde o ficcional encontra a realidade, sem dúvidas Terra em Transe, é a transmissão nas telas do próprio momento histórico da realidade brasileira. Não só retratando a deflagração do golpe em 64, como trazendo a análise conjuntural do período. Espelha as instituições, a injustiça social, a alienação, a corrupção, o populismo, as contradições da militância intelectual (Lobo, 2007), e toda a sorte de ações que estavam em desacordo com a liberdade da nação (Lima Neto, 2012).
Entretanto, existe um contexto muito mais amplo intrínseco ao filme, é a realidade brasileira ao mesmo tempo em que pode ser qualquer outro pedaço do terceiro mundo. Interliga-se América Latina, África e Península Ibérica. Atlântico torna-se justamente essa ponte na exposição da contradição estrutural das relações de classe num país subdesenvolvido, no compartilhamento da luta contra o imperialismo, do ser descrito pelo outro e a luta para expressar o olhar de si mesmo. Seu retrato tricontinental, torna-se espelho tanto do golpe civil-militar brasileiro, quanto da América Latina atravessada por ditaduras e das lutas por independência no continente africano. É o lugar alegórico marcado pelo desfile de iniquidades, incongruências, anomia, violência, fragmentação e incompetência constitutiva (Xavier, 1993) comum à países com raízes coloniais. O relato do subdesenvolvimento contando a própria história.
Pensar a contemporaneidade de “Terra em Transe”, revela a permanência das questões que o filme mobiliza, ainda hoje pertinentes em obstáculos estruturais de uma nação com raízes colonialistas (Dolci; Weinmann, 2020). Na ascensão de movimentos de extrema direita, nas crises recorrentes da democracia, na alienação, no tensionamento entre projetos de poder, e sobretudo nas constantes inconstâncias da política, da sociedade, do próprio ser. Nas contradições inerentes à existência, mostra como esses movimentos e tensionamentos não são algo extraordinário, mas próprios da sociedade e seu reflexo. Propondo uma profunda sistemática das tipografias de lideranças políticas para o próprio entendimento da sociedade e seus caminhos, torna-se possível identificá-las, na interpretação em diferentes temporalidades. Independente do momento, expõe a sensação permanente compartilhada, como colocou Miguel Chaia (2025) “é inacreditável, quanto tempo vamos suportar”, questão inerente à política.
Terra em Transe é o marco do cinema brasileiro, do Cinema Novo, do movimento Tropicália, a referência que ousou mostrar a realidade nacional sob uma ótica crítica e alegórica, anticolonial, anti-imperialista e revolucionária. Revelando os aspectos políticos de sua época e a simultânea atemporalidade da produção, torna-se importante meio de se entender história e atualidade, na irreverência de um olhar inquieto. É exaltar o olhar crítico, a arte como política, como forma não só de entender o mundo, mas também de alterá-lo. E perceber a simbologia de transmitir o filme em contexto dos 30 anos do curso na PUC-SP, em uma Semana de Relações Internacionais voltada para o Sul Global, revive a sua referência e importância. Como metalinguagem, contando e recontando a própria história.
Referências
BENTES, Ivana. Terra de fome e sonho: o paraíso material de Glauber Rocha. In: FUNDACIÓN SANTILLANA (org.). Ressonâncias do Brasil. Santillana del Mar: Fundación Santillana, 2002. p. 90-109
CHAIA, Miguel; ESTEVINHO, Telmo Dinelli. Glauber Rocha: entre a liderança cultural e as lideranças políticas. Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v. 13, n. 37, p. 5-26, fev.–mai. 2020.
CASTELO, Sander Cruz. A ética revolucionária: utopia e desgraça em Terra em transe (1967). 2010. 345f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Universidade Federal do Ceará, Departamento de Ciências Sociais, Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Fortaleza-CE, 2010.
DOLCI, Liana Netto; WEINMANN, Amadeu de Oliveira. Uma análise fílmica de Terra em Transe: tempos de encerramento político. In: CASTRO, Fabio Caprio Leite de; ROSA, Brandon Jahel da; MARQUES, Cristian (orgs.). Filosofia e Psicanálise: Psicopolítica e as Patologias Contemporâneas. v. 2. Porto Alegre: Editora Fundação Fênix, 2020. p 98-118. DOI: 10.36592/9786587424033. Disponível em: https://www.fundarfenix.com.br
ROCHA, G. Terra em transe. Rio de Janeiro: Mapa Produções Cinematográficas, 1967 [produção]. 1 filme (105 min), 35 mm, p&b. Cópia da Cinemateca Brasileira, 1967.
LIMA NETO, Antônio. As intersecções entre cinema e história no filme Terra em Transe. Revista Thema, v. 09, n. 02, 2012.
LOBO, Júlio César. Precisa-se de um líder e de um poeta (prática poética e prática militante no filme Terra em Transe, de Glauber Rocha). Cadernos de Ciências Humanas – Especiaria, Ilhéus, v. 10, n. 17, p. 113-136, jan./jun. 2007. Disponível em: https://periodicos.uesc.br/index.php/especiaria/article/view/863/799
PRYSTHON, Angela. A Terra em Transe: o cosmopolitismo às avessas do cinema novo. Galáxia. Revista Interdisciplinar de Comunicação e Cultura, [S. l.], n. 4, 2007. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/galaxia/article/view/1282.
RAMOS, Alcides Freire. TERRA EM TRANSE (1967, GLAUBER ROCHA): ESTÉTICA DA RECEPÇÃO E NOVAS PERSPECTIVAS DE INTERPRETAÇÃO. Fênix - Revista de História e Estudos Culturais, [S. l.], v. 3, n. 2, 2006. Disponível em: https://revistafenix.emnuvens.com.br/revistafenix/article/view/907.
XAVIER, Ismail. Alegorias do Subdesenvolvimento. São Paulo: Brasiliense, 1993.



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