Resenha do filme "A Morte e a Donzela" em diálogo com Barrington Moore Jr. e Michael Walzer
- PET-RI PUC-SP
- 3 days ago
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Por Sophia Rohden e Gustavo Chuba

O filme A Morte e a Donzela (1994), dirigido por Roman Polanski e baseado na peça homônima de Ariel Dorfman, problematiza os limites da justiça diante de experiências de violência política. Ao colocar frente a frente uma sobrevivente da ditadura e o homem que ela acredita ter participado de sua tortura, o filme questiona se a verdade, a punição ou o reconhecimento do sofrimento são suficientes para reparar uma injustiça. Nesse sentido, a obra permite discutir não apenas o significado da justiça, mas também quais critérios morais permanecem válidos em contextos marcados pela violência e pela ruptura da ordem democrática.
Ambientado em um país latino-americano que passa por um processo de redemocratização após anos de ditadura, o filme acompanha Paulina Escobar (Sigourney Weaver), sobrevivente de prisão, tortura e violência sexual cometidas durante o regime militar, e seu marido, Gerardo Escobar (Stuart Wilson), advogado recém-nomeado para integrar uma comissão responsável por investigar violações de direitos humanos ocorridas no período.
A rotina do casal é interrompida quando Roberto Miranda (Ben Kingsley) ajuda Gerardo após um problema mecânico na estrada e acaba sendo convidado para passar a noite em sua casa. Ao ouvir sua voz e observar seus comportamentos, Paulina acredita reconhecer nele o médico que participou de suas sessões de tortura. Sua convicção não se baseia apenas em uma única evidência, mas em um conjunto de elementos que ela associa às experiências vividas durante o cativeiro, como sua voz, suas referências a Nietzsche e a forma como se expressa. Convencida de que encontrou um dos responsáveis pela violência que sofreu, Paulina o amarra e passa a interrogá-lo dentro da própria casa.
A partir desse momento, Gerardo assume a posição de mediador entre a esposa e o homem acusado por ela, comprometendo-se a garantir que sua vida fosse poupada caso ele formalizasse uma confissão pelos crimes cometidos. Enquanto Paulina busca reconhecimento e responsabilização moral, ele insiste na necessidade de provas, procedimentos legais e cautela diante das acusações. O conflito coloca os personagens diante de um impasse: de um lado, Paulina demonstra uma convicção inabalável sobre a identidade de Roberto, de outro, os elementos disponíveis não permitem uma comprovação definitiva de suas acusações. É justamente dessa tensão entre convicção pessoal e ausência de certeza absoluta que emerge a principal discussão do filme sobre moralidade e justiça. Nesse contexto, a identidade de Roberto torna-se menos importante do que os limites da verdade, da responsabilidade moral e das formas possíveis de reparação diante da violência sofrida por Paulina.
A posição ocupada por Gerardo ao longo da narrativa revela-se mais complexa do que aparenta inicialmente. Embora procure agir como intermediário e defensor de uma solução racional para o conflito, sua própria trajetória está profundamente ligada aos acontecimentos que marcaram a vida da esposa. Em determinado momento, ele admite que sua sobrevivência durante a ditadura foi possível porque Paulina resistiu às sessões de tortura e não forneceu informações que poderiam comprometê-lo. Essa revelação evidencia que ele não é um observador externo dos acontecimentos, mas alguém cuja trajetória está diretamente ligada ao sofrimento da esposa. Sua tentativa de ocupar uma posição imparcial torna-se, portanto, questionável, uma vez que o conflito também atravessa a sua própria história. Além disso, Gerardo pode ser compreendido como uma representação dos próprios processos de transição democrática, focado na preservação dos procedimentos institucionais, enquanto Paulina representa a experiência da vítima, que frequentemente permanece à margem desses processos formais.
Essa tensão torna-se ainda mais evidente quando Paulina relata ao marido, de forma detalhada, os estupros e torturas que sofreu durante o período em que esteve presa. A cena chama atenção para a dificuldade de transformar uma experiência individual de sofrimento em uma verdade socialmente reconhecida. Ao longo de boa parte da narrativa, Paulina é tratada como alguém emocionalmente instável ou excessivamente influenciada pelo trauma. Sua palavra, por si só, parece insuficiente. Mesmo quando demonstra convicção sobre a identidade de Roberto, suas acusações são frequentemente recebidas com cautela ou desconfiança.
Um aspecto simbólico importante da obra é a utilização da composição A Morte e a Donzela, de Schubert. A música está associada às memórias que Paulina guarda de seu período de prisão e desempenha papel relevante no processo pelo qual ela identifica Roberto. Ao capturá-lo, Paulina reproduz a mesma composição que associa às lembranças de sua prisão. A inversão é significativa na medida em que a música que antes acompanhava uma situação de absoluta vulnerabilidade passa a ser utilizada por Paulina em um momento de controle sobre os acontecimentos. No entanto, essa inversão não produz libertação. A música demonstra que a memória ocupa papel fundamental na construção das certezas que orientam as ações da personagem ao longo do filme
A ambiguidade que atravessa a história se estende à elaboração da confissão de Roberto. Gerardo participa ativamente da construção do relato, sugerindo formulações e auxiliando Roberto em sua elaboração. Como parte das informações presentes no documento surge durante as próprias discussões entre os personagens, torna-se difícil determinar até que ponto a confissão representa uma admissão espontânea ou uma narrativa construída ao longo daquele processo. Além disso, a própria possibilidade de comprovação dos fatos é constantemente questionada. Em determinado momento, Paulina argumenta que a ditadura era capaz de produzir documentos e álibis para proteger seus agentes, colocando sob suspeita mecanismos tradicionalmente utilizados para estabelecer a verdade. O filme sugere, assim, que a busca por justiça ocorre em um contexto no qual as evidências disponíveis nem sempre são suficientes para eliminar a incerteza.
A complexidade do problema atinge seu ápice na cena do penhasco, já que Roberto, antes coagido a assumir uma posição, agora se depara com a própria morte. Sob tal ameaça, ele apresenta uma confissão que parece corroborar as suspeitas de Paulina, embora as circunstâncias em que ela é obtida impeçam qualquer certeza definitiva sobre a sua veracidade. Mais significativo do que a própria confissão, entretanto, é a forma como Roberto fala sobre os acontecimentos. Diferentemente do que ocorre em muitas narrativas de reconciliação, ele não demonstra culpa, remorso ou constrangimento, ao contrário, afirma com clareza que não se arrepende do que fez e chega a sugerir que sentia prazer na posição de poder que exercia sobre suas vítimas. A cena rompe com a expectativa de que o reconhecimento dos fatos seja suficiente para produzir uma resolução satisfatória do conflito. Se, ao longo da narrativa, a busca pela verdade aparece como um caminho possível para a justiça, nesse momento o filme sugere que a verdade pode não bastar.
No ciclo temático deste semestre (2026/1), o PET trabalhou o papel da responsabilidade moral em cenários de conflitos e de ações deliberadas pelo Estado, o que se reflete na narrativa. Em Guerras Justas e Injustas, Michael Walzer critica a visão realista segundo a qual situações extremas suspendem a moralidade. Para Walzer, mesmo em contextos de guerra, violência ou exceção política, os indivíduos continuam julgando e sendo julgados moralmente. Isso significa que a tortura, o abuso e a violência não deixam de ser moralmente condenáveis porque ocorreram sob um regime ditatorial. A existência de uma causa política ou de uma ordem estatal não elimina a responsabilidade individual pelos atos praticados. Mesmo quando uma ação é justificada por determinados objetivos, permanece a responsabilidade pelos meios utilizados para alcançá-los.
As contribuições de Barrington Moore Jr. aprofundam essa discussão ao relacionar justiça e percepção da injustiça. Para o autor, o sentimento de injustiça surge quando ocorre uma ruptura das obrigações morais que sustentam a vida em sociedade. Além disso, a revolta não nasce automaticamente do sofrimento, ela depende de um processo de transformação moral no qual esse sofrimento passa a ser percebido como ilegítimo. Sob essa perspectiva, a trajetória de Paulina expressa uma recusa em aceitar a normalização da violência sofrida durante a ditadura e em permitir que ela seja relegada ao passado sem reconhecimento ou responsabilização.
Os dilemas discutidos ao longo do filme tornam-se particularmente evidentes na sequência final. Durante um concerto em que a obra de Schubert volta a ser executada. Roberto aparece em um camarote, acompanhado da família, ocupando uma posição fisicamente elevada e socialmente privilegiada. Paulina o observa da plateia. O encontro de olhares entre os dois reforça a sensação de irresolução que atravessa toda a narrativa. A composição visual da cena evidencia que, apesar de toda a confrontação ocorrida ao longo do filme, as estruturas de poder permanecem praticamente intactas. Roberto continua integrado à vida social e protegido por sua posição, enquanto Paulina permanece convivendo com as consequências da violência que sofreu.
Diante desse cenário de impunidade social e desamparo institucional, o desfecho do filme deixa uma pergunta central em aberto: Paulina conseguiu alcançar a justiça? Se a justiça for compreendida como punição efetiva do agressor e reparação do dano sofrido, a resposta tende a ser negativa. Nenhuma confissão é capaz de devolver os anos perdidos, eliminar o trauma ou restaurar completamente sua vida anterior. Contudo, se a justiça for entendida como reconhecimento da verdade e afirmação da autoridade moral da vítima diante da opressão, Paulina alcança ao menos uma vitória parcial ao quebrar o silêncio do regime. Ao recusar soluções simples, o filme evidencia que determinadas formas de violência produzem danos que nenhuma punição, confissão ou instituição é plenamente capaz de reparar. Ao final, permanece a possibilidade de que a verdade seja revelada sem que, necessariamente, a justiça seja alcançada.