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Mulheres na guerra como quebra de papel de gĂȘnero: As mulheres nas FARC.

  • Writer: PET-RI PUC-SP
    PET-RI PUC-SP
  • Feb 3, 2020
  • 8 min read

Updated: Apr 2, 2021


Por Amanda Rodriguez

A lĂłgica do patriarcado produz violĂȘncias palpĂĄveis, o machismo mata todos os dias, e as mulheres no mundo inteiro resistem e lutam para sobreviverem. A reação contra a busca por direitos Ă© ainda mais acentuada quando as expectativas de comportamento sĂŁo transgredidas. É possĂ­vel pensar a inserção das mulheres na guerra como exemplo de transgressĂŁo, para isso irei analisar o papel das mulheres nas Forças Armadas RevolucionĂĄrias da ColĂŽmbia (FARC) e como o patriarcado transnacional afeta as mulheres no contexto de conflitos na ColĂŽmbia. Passando pelas concepçÔes de feminino e masculino, a questĂŁo da violĂȘncia, as razĂ”es dessas mulheres para aderirem Ă s guerrilhas e as contradiçÔes entre o discurso das FARC em relação ao gĂȘnero e suas açÔes.

Dicotomia: feminino e masculino

A pesquisadora María Emma Wills Obregón escreve sobre a inserção das mulheres na guerra, pensando aspectos em que, por um lado, essa entrada quebra estereótipos, e, por outro, aspectos em que ela reforça estruturas de opressão do patriarcado. Os estereótipos associados à figura da mulher e ao feminino são construídos em oposição àquilo que é ligado ao homem e ao masculino, assim este seria lógico, racional, individualista, inovador, curioso e responsåvel por descobertas; enquanto aquela seria emocional, intuitiva, cuidadosa, envolvida em relaçÔes interpessoais e possuiria um instinto maternal.

Minillo, Mendes, Bandeira e Lages ao estudarem e escreverem sobre a participação das mulheres nas negociaçÔes de paz contribuem com a imagem de “belas Almas” que estaria associada aos corpos femininos docilizados; esses seriam frĂĄgeis e nĂŁo belicistas. Em contrapartida, os corpos masculinos seriam os “guerreiros justos”, cuja violĂȘncia Ă© justificada e se estrutura na forma da guerra.

Seguindo essa dicotomia, o homem teria as competĂȘncias de ação polĂ­tica em uma esfera pĂșblica enquanto a mulher estaria circunscrita a um ambiente privado, do lar, de forma que a guerra, por ser baseada na força e no poder seria masculinizada e a mulher nĂŁo deveria se envolver. Isso Ă© reforçado historicamente com a exclusĂŁo das mulheres da esfera pĂșblica: por mais que as mulheres tenham exercido papĂ©is nas guerras, elas sĂŁo tratadas como secundĂĄrias ou nem sĂŁo analisadas. 

Na AmĂ©rica Latina, a luta pela independĂȘncia e a construção dos Estados Nacionais por meio da profissionalização do exĂ©rcito contribuĂ­ram para o processo de reclusĂŁo das mulheres ao lar. O afastamento do pĂșblico contribui para a invisibilidade polĂ­tica e econĂŽmica das mulheres, pois tudo que Ă© considerado feminino Ă© colocado como inferior Ă quilo que Ă© considerado masculino.

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ViolĂȘncia e Poder

A partir da dĂ©cada de 60 as mulheres passam a combater, a se inserir no espaço masculinizado da guerra nas “linhas de frente”, ou seja, quebram a conduta esperada e conquistam espaço no ambiente de guerra. No entanto, isso nĂŁo significa que o ambiente deixa de ser masculinizado, ou que essa inserção estaria acompanhada da mudança de mentalidade. O machismo continua estabelecendo uma relação de subjugação em relação ao feminino. 

A lĂłgica do patriarcado Ă© transnacional e se mantĂ©m historicamente, o poder masculino Ă© exercido pela inferiorização do feminino e a tentativa de sua exclusĂŁo das esferas de poder. Isso possibilita diversas formas de violĂȘncia, das violĂȘncias privadas/domĂ©sticas – que segundo Donny Meertens, sĂŁo as menos visĂ­veis e mais permanentes – ao uso da tortura como forma de destruição da feminilidade e do estupro como arma de guerra.

Minillo, Mendes, Bandeira e Lages trazem que na ColĂŽmbia o imaginĂĄrio sustenta que as mulheres nĂŁo tĂȘm o mesmo valor que os homens na construção do Estado. Retomando a noção do feminino como complementar e/ou auxiliar, o que se traduz socialmente em menos oportunidades, dependĂȘncia econĂŽmica, dificuldades em obter acesso Ă  educação, jornadas duplas de trabalho, suscetibilidade Ă  obtenção de trabalhos informais e maiores chances de desemprego Ă s pessoas que se identificam com o gĂȘnero feminino.

Transgressão e Subordinação

As mulheres na guerra estariam infringindo a conduta esperada, o que seria – para ObregĂłn – um esforço consciente de quebra de estereĂłtipos. É tambĂ©m uma forma de lutar por direitos e por espaço de ação, porĂ©m a sociedade machista reage de forma a barrar avanços. Nos conflitos de independĂȘncia da AmĂ©rica Latina, as mulheres atuaram como espiĂŁs, mensageiras e se encarregaram das finanças mas ao formalizar os Estados independentes, as constituiçÔes impediam seus direitos plenos de forma a nĂŁo reconhecer as mulheres como cidadĂŁs e como agentes polĂ­ticas. Meertens coloca que justamente pela transgressĂŁo das normas de convivĂȘncia pacĂ­fica e das normas de divisĂŁo sexual do trabalho que elas estĂŁo se afirmando como agentes ativas.

Assim, a incorporação das mulheres na guerra Ă© uma transgressĂŁo, mas a lĂłgica de inferiorizar os corpos femininos se mantĂ©m e, por conta disso, elas podem ser incorporadas em posiçÔes de subordinação, como cargos de apoio, com poucas chances de ascender para um papel de liderança e com pouca influĂȘncia nas tomadas de decisĂŁo.

No caso da ColĂŽmbia, se estimava que as mulheres compunham cerca de 40% do contingente das Forças Armadas RevolucionĂĄrias da ColĂŽmbia (FARC), as FARC foram criadas em 1966 durante a segunda conferĂȘncia guerrilheira mas as mulheres sĂł começaram a entrar na dĂ©cada dos anos 1980. As FARC se formaram em um contexto de resistĂȘncia a duas elites que estavam em disputa – os conservadores e os liberais – e que mantinham um sistema agrĂĄrio oligĂĄrquico e excludente, causando guerras civis no paĂ­s, essas elites se unem apoiando um ditador – General Rojas Pinilla – que treinava o exĂ©rcito e a população civil em nome de uma luta anticomunista, o que leva Ă s FARC a se unirem.

“Elas faziam parte das “guerras civis” colombianas e da contestação violenta da legitimidade do poder 
 remetiam Ă  experiĂȘncia recente 
 a uma memĂłria imediata e, por fim, inseriam-se na experiĂȘncia contemporĂąnea do radicalismo revolucionĂĄrio anti-imperialista (
).” (PECAUT, 2008, p.19). (MINILLO e col., 2017, p.311).


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AderĂȘncia ao Conflito

O contexto da ColĂŽmbia Ă© compreendido como a negligĂȘncia de um Estado que nĂŁo tĂȘm legitimidade frente a sua população e a violĂȘncia armada de grupos nĂŁo estatais. A sociedade colombiana, especialmente nas regiĂ”es rurais, coloca a mulher em uma posição muito precĂĄria, em relação Ă  condiçÔes de trabalho, Ă  ideia do papel da mulher como aquela que cuida do lar, Ă  dependĂȘncia financeira e Ă  suscetibilidade de sofrer violĂȘncias por parte do seu parceiro ou outros familiares e tambĂ©m por parte das guerrilhas, uma vez que o Estado nĂŁo garante segurança.

Com essas condiçÔes, as autoras concordam que as mulheres sĂŁo agentes e decidem se juntar Ă s FARC, elas apontam que as opçÔes de escolha sĂŁo escassas e trazem alguns motivos que levam essas mulheres – principalmente camponesas – a se unirem Ă  guerrilha. Seriam eles: a possibilidade de escapar da violĂȘncia familiar/domĂ©stica e de ter segurança, a vontade de viver relaçÔes de companheirismo e de solidariedade, a busca por controle sobre as suas vidas, o escape de uma realidade de dependĂȘncia e de pobreza, a decisĂŁo de lutar contra o Estado capitalista patriarcal e o discurso de participação polĂ­tica, tratamento igualitĂĄrio e de transformação da sociedade que as FARC adotam. Entre eles, se destaca a busca por segurança: 

“Nas FARC, eles nĂŁo podem tocar em vocĂȘ. Por lei. Os homens nĂŁo podem bater em vocĂȘ e nĂŁo sĂł porque Ă© requerido que eles nĂŁo te toquem, mas porque nĂłs mulheres tambĂ©m carregamos armas, entĂŁo quando vocĂȘ estĂĄ lĂĄ, os homens te respeitam porque vocĂȘ tem uma arma 
 Na vida civil hĂĄ mais violĂȘncia e mais impunidade e aqueles que cometem crimes nĂŁo sĂŁo punidos. Nas FARC, eles sĂŁo.(
).”(Natalia, combatente entrevistada por MENDEZ, 2012, p. 133-134; tradução livre). (MINILLO e col., 2017, p.317).

ContradiçÔes

As mulheres na guerrilha – especialmente as combatentes – desafiam os papĂ©is tradicionais de gĂȘnero e Ă s regras de socialização feminina. O discurso de igualdade se materializa nos treinamentos e no ensino de filosofia, sociologia e de combate; nas regras de nĂŁo agressĂŁo entre os membros e tambĂ©m na possibilidades das pessoas, independente do gĂȘnero, ocuparem cargos de liderança.

Por outro lado, o discurso de tratamento igualitĂĄrio Ă© confrontado com contradiçÔes pois a guerrilha reproduz violĂȘncias contra as mulheres que fazem parte do grupo. Isso se dĂĄ pois nĂŁo ocorreu o questionamento dos modelos de masculinidade da sociedade colombiana o que inviabiliza uma modificação em relação Ă s concepçÔes de inferioridade daquilo que Ă© considerado feminino, de modo que para elas ascenderem na hierarquia Ă© necessĂĄrio um processo de masculinização, pois elas eram vistas como detentoras de uma inaptidĂŁo natural que impedia uma igualdade de oportunidade em relação a seus companheiros.

“(
) elas desafiavam papĂ©is de gĂȘnero mas era adotando caracterĂ­sticas masculinizadas, que eram valorizadas, que elas poderiam participar de prĂĄticas polĂ­tico-militares que 
 estavam claramente inscritas, em um universo masculino, eram coisas de homens.” (VASQUEZ, 2006, p.354-355 apud COSTA, 2008, p.199, tradução nossa). (MINILLO e col., 2017, p.319).

Elas também ocupavam posiçÔes de apoio, que contribuíam para a re-afirmação do lugar da mulher em posiçÔes secundårias, cada um na guerrilha precisava ocupar o cargo mais adequado para suas habilidades e a afirmação do machismo da sociedade colombiana os levava a priorizar as mulheres para essas posiçÔes pois seriam mais efetivas por serem menos ameaçadoras e por passarem despercebidas.

“(
) as açÔes dentro da guerrilha tenderam a naturalizar e reproduzir as desigualdades de gĂȘnero, direcionando as mulheres a atividades especĂ­ficas a partir do pressuposto de que elas sĂŁo fisicamente inferiores, inaptas para atuar de acordo com os ideais de masculinidade militarista.” (MINILLO e col., 2017, p.322).

Manutenção do Patriarcado

TambĂ©m Ă© possĂ­vel observar que a mentalidade patriarcal nĂŁo Ă© quebrada devido a violĂȘncia militarizada que Ă© cometida contra as mulheres, a normalização de que a violĂȘncia Ă© necessĂĄria para a transformação das concepçÔes referentes aos gĂȘneros acaba perpetuando mais violĂȘncias, como: ameaças, assassinato, terrorismo, tortura, desaparecimento involuntĂĄrio, escravidĂŁo sexual, estupro, abuso sexual, gravidez forçada, abortos e deslocamentos. Ou seja, Ă© mantida a lĂłgica de objetificação da mulher e a noção de que o corpo masculino exerce poder sobre os corpos femininos, o que Ă© visto pelos casos de violĂȘncia sexual que os guerrilheiros perpetuam.

AlĂ©m disso, o corpo feminino entra em uma lĂłgica de controle seguindo as regras das FARC, o que algumas guerrilheiras enxergam como parte da guerrilha abdicar do seu corpo para a causa. Elas nĂŁo poderiam se relacionar com homens de fora do grupo, para que sua sexualidade nĂŁo se tornasse uma ameaça – enquanto os homens poderiam se relacionar com mulheres de fora -, assim, havia uma regularização das relaçÔes afetivas, sexuais e reprodutivas. Era permitida certa liberdade sexual Ă s mulheres, que poderiam se envolver com quem quisessem mas era obrigatĂłrio o uso de mĂ©todos contraceptivos, restringindo a liberdade reprodutivas delas, que se ficassem grĂĄvidas deveriam abortar ou seriam mortas. Outro ponto que vale ressaltar Ă© que havia uma polĂ­tica de tolerĂąncia zero com casos de estupro e de assĂ©dio sexual dentro do grupo, porĂ©m os comandantes, que sĂŁo homens muito mais velhos, usavam de sua autoridade e presenteavam meninas a fim de estabelecer relaçÔes com elas. O que funcionava como uma relação de proteção que era estabelecida, um exemplo da proteção Ă© referente a gravidez, se ela ficasse grĂĄvida poderia seguir com a gravidez.

Dessa forma Ă© possĂ­vel concluir que a incorporação das mulheres nas FARC possibilitam novos espaços de ação polĂ­tica e sĂŁo resultantes da agĂȘncia dessas mulheres mas apesar do discurso anti-patriarcal das FARC, a organização reproduz machismo e violĂȘncia no tratamento das guerrilheiras e das vĂ­timas das açÔes da guerrilha.

ReferĂȘncias BibliogrĂĄficas 

CAVALHEIRO, Maria T. F.. A mulher no conflito da América Latina: O caso das guerrilheiras das FARC.

MEERTENS, Donny. Las Mujeres y la violencia: conflictos rurales y sus efectos diferenciados por genero. Seminario-taller “Estrategias y acciones para la paz en Colombia” : la paz : miradas de esperanza, Outubro 19-22, 1995, Sasaima, Cundanamarca, Colombia.

MINILLO, Xaman; MENDES, Bianca; BANDEIRA, Luiza; LAGES, Rebeca. Mulheres Guerreiras: questĂ”es de gĂȘnero na participação feminina nas FARC e sua influĂȘncia nas negociaçÔes de paz na ColĂŽmbia. MonçÔes: Revista de RelaçÔes Internacionais da UFGD, Dourados, v.6, n.11, p.305-339,  jan./jun. 2017. 

OBREGÓN, María E. W.. ¿Mujeres en armas: Avance ciudadano o subyugación femenina?. Análisis político, Bogotá, v.18, n.54, p.63-80, maio-agosto 2005.

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